No episódio desta semana do podcast Agro de Primeira, Alex Mendes recebeu os proprietários da Estância Shalom, Dalton Peres e Sandra Medeiros Peres, para falar sobre a trajetória de superação e resiliência até a realização e produção de queijos e turismo rural na propriedade. (assista ao episódio completo no Youtube acima ou clique no link abaixo para ver ou ouvir o podcast no Spotify)
Em meio aos desafios enfrentados, Sandra viu na produção de queijos uma alternativa para seguir em frente, mesmo sem ter cursos especializados na área. “Eu comecei, ali aos poucos. Foram seis meses errando e eu falei pra Deus, que eu não aguentava mais, e a partir daí eu comecei a acertar”.
Emocionada, ela explica que o intuito inicial da produção era para ser uma renda extra, mas que aos poucos tomou maiores proporções. “O que eu tinha na minha cabeça é que eu ajudaria ele com alguma coisa que meus filhos precisassem. Eu não imaginaria que isso seria o nosso sustento”.
A Estância Shalom foi criada em 2020 e está localizada em Bandeirantes (MS). Na agroindústria familiar, o casal produz queijos mussarela, meia cura, parmesão, capa preta, frescal e artesanais, feitos exclusivamente com leite A2, sem acidez e 100% natural.
Em 2025, a propriedade recebeu o prêmio de Melhor Queijo Meia Cura, Massa Crua do MS, promovido no Rural Tur 2025, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/MS).
Concorrência e resistência no campo
Em Mato Grosso do Sul, o queijo ocupa um lugar especial na mesa e na memória das pessoas. Ele está presente tanto nas receitas simples do dia a dia quanto nos cardápios mais elaborados. Mas, por trás desse alimento tão tradicional, existe uma realidade cheia de desafios para quem escolhe produzir de forma artesanal.
Competir com a grande indústria não é tarefa fácil. O preço pago pelo queijo artesanal dificilmente acompanha o alto custo da produção, que exige investimento constante em qualidade, boas práticas e certificações.
Sandra conhece bem essa realidade e explica que a falta de mão de obra dificulta ainda mais o processo de produção e rentabilidade. “Uma das coisas que a gente sofre muito é a falta de mão de obra. Como é de domingo a domingo, eu levantava todos os dias, por três anos, às três da manhã. Comecei devagar, sem nenhum maquinário”, conta.

Além da sobrecarga dentro da propriedade, os desafios se estendem para fora da porteira. Segundo o casal, produtores da região enfrentam falta de reconhecimento e pouco apoio do poder público. Eles sentem falta de incentivo do município, como assistência técnica e atendimento veterinário aos produtores locais.
“A gente se sente um pouco sozinho nessa jornada. Falta incentivo local. Até tentamos montar grupos de produtores, mas muitas vezes somos só nós. E aí a gente perde as forças, porque parece que não tem voz”, desabafa Sandra.
Rota de fé
Dalton, no início, não acreditava que a produção de leite e queijo fosse dar certo. Ainda havia a esperança de recuperar a propriedade anterior, vendida em 2017, da qual receberam apenas parte do valor.
Ele sempre ouviu que trabalhar com leite era um caminho difícil e sofrido. “Meus avós sempre falavam que o leite é escravidão. Com o tempo e a necessidade de vender a propriedade antiga, a Sandra foi me convencendo aos poucos. Mas mesmo assim, eu ainda não botava fé”, relembra o produtor.
Com persistência, investimentos e muito trabalho, a Estância Shalom se estruturou e conquistou certificações importantes, como o Serviço de Inspeção Municipal e o Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal, que permitem a comercialização dos produtos em todo o país.

Foi nesse processo que surgiu uma nova possibilidade: o turismo rural. A ideia veio como uma forma de gerar renda extra e dar mais visibilidade à propriedade. Aos poucos, o casal passou a enxergar o que o lugar tinha a oferecer além da produção.
“Nós nem sabíamos tudo o que existia aqui. Foi quando descobrimos as cavernas e trilhas que vimos no turismo uma oportunidade de complementar a renda”, contam.
O projeto foi idealizado por Dalton e desenvolvido ao longo dos anos com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul (Senar/MS) e de uma profissional de turismo da região. Com orientação e planejamento, a Estância foi autorizada a receber visitantes.

Atualmente, aos domingos, o público é recebido com um café da manhã completo, preparado com produtos feitos na própria propriedade. Queijos, geleias, tortas e a tradicional chipa fazem parte da mesa e ajudam a criar um clima de acolhimento e conversa.
Depois do café, os visitantes podem seguir por trilhas que passam por cavernas, mirantes e belas paisagens naturais. As visitas são abertas ao público, e as datas são sempre divulgadas com antecedência nas redes sociais da Estância Shalom.

Entre desafios, fé e novas descobertas, o casal segue transformando dificuldade em oportunidade — mostrando que, mesmo diante da concorrência e da falta de apoio, o campo ainda pode ser um lugar de resistência, trabalho e acolhimento.