O influenciador Jefferson de Souza, de 37 anos, está sendo investigado por utilizar imagens de jovens em conteúdos manipulados com inteligência artificial. Os vídeos foram publicados em redes sociais e incluem montagens baseadas em fotografias feitas dentro de templos religiosos.
Em gravações divulgadas por ele, Jefferson critica o comportamento de jovens que tiram fotos em igrejas. “Algumas mostram o rosto, mas mostrando outras partes também. E hoje em dia, as roupas que as irmã usam são roupas que marcam o corpo”, afirmou. Ele também declarou: “Eu acho assim, não tem nada a ver, tudo bem, cada um com a sua vida, mas eu não acho certo fazer filmagem dentro da igreja”.
O influenciador, que também atua como humorista e borracheiro, afirmou à polícia que utiliza essas imagens como base para a produção de vídeos com tecnologia de deepfake, técnica que permite alterar ou criar conteúdos audiovisuais com aparência realista por meio de inteligência artificial.
O caso passou a ser investigado em fevereiro pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher, localizada em São Paulo. A apuração teve início após denúncia feita por uma adolescente, acompanhada pelos pais, e é conduzida com acompanhamento do Ministério Público e do Judiciário.
A polícia apura a suspeita de simulação de conteúdo sexual envolvendo menor de idade por meio digital, crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, com pena de um a três anos de reclusão, além de multa. Também é investigada possível prática de difamação contra outras jovens.
Jefferson mantém o canal Humor do Crente no YouTube, além de perfis no Instagram, Facebook e TikTok, onde se apresenta como “Silvio Souza”. Em vídeos, ele descreve o uso de ferramentas de inteligência artificial. “No meu caso, eu posto os vídeos aqui quando eu comecei a fazer a brincadeira com a voz de Silvio Santos. Pego a foto, as irmãs postando foto de costas, aí eu jogo na IA, a IA faz dançar”, afirmou.
A defesa informou, por meio de nota, que as publicações “tinham o intuito de sátira e críticas de costumes” e declarou que “em nenhum momento houve a intenção de promover exploração sexual, pornografia ou qualquer ato que atentasse contra a dignidade sexual das pessoas mencionadas”. Em depoimento anterior, Jefferson negou as acusações.
Em um vídeo publicado no domingo de Páscoa, 05 de abril, o influenciador pediu desculpas por conteúdos relacionados à igreja. “Eu quero pedir desculpa, pedir perdão publicamente pelos vídeos que eu andei postando. Eu confesso que errei na minha forma de falar”, disse. Ele acrescentou: “Eu peço perdão a todos que se sentiram ofendidos (…) Eu prometo ser mais cauteloso”.
Uma das vítimas, uma estudante adolescente, afirmou que teve sua imagem utilizada sem autorização. “Ele pegou a minha foto sem autorização e fez uma montagem com inteligência artificial, com as mulheres sensualizando na frente e comigo junto a elas”, declarou. Segundo ela, a exposição causou constrangimento e mudanças em seu comportamento. “Eu não tirei mais nenhuma fotografia. Também me gerou preocupação”, disse.
A delegada Juliana Raite Menezes afirmou que o caso envolve manipulação de imagens de jovens. “A internet não é uma terra sem lei. As leis que nos protegem no mundo real também se aplicam no ambiente virtual”, declarou.
Especialistas ouvidos durante a apuração destacaram que o uso de inteligência artificial não elimina a responsabilidade de quem produz ou divulga esse tipo de conteúdo. A pesquisadora Laura Hauser afirmou que a responsabilidade não deve recair sobre as vítimas. “Não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar”, disse.
A diretora da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, afirmou que casos envolvendo esse tipo de prática tendem a crescer com o avanço tecnológico. “É muito importante que vítimas dessa violência não se sintam culpadas”, declarou.
De acordo com o G1, a Congregação Cristã no Brasil informou em nota que não mantém registro formal de membros e declarou apoio à adoção de medidas legais pelas autoridades.
As plataformas digitais também se manifestaram. O TikTok informou que adota política de tolerância zero para exploração sexual infantil e remove conteúdos desse tipo. O YouTube declarou que retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou o caso.